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quarta-feira, 6 de maio de 2026

 

ANGEOLOGIA NO MEDIEVO


 

         Diácono Paulo Gabriel Batista de Melo
       Capelania Nossa Senhora do Loreto
            Ordinariado Militar do Brasil – Parnamirim (RN)

 

            Aos olhos dos iluministas, a Idade Média foi um período de trevas, mas este conceito já foi revisado como inconsistente por bons historiadores como Jacques Le Goff, Hilário Franco Júnior, Pierre Duhem, Lynn Thorndike e poderíamos citar uma plêiade deles que não aceitaram essa afirmação iluminista, em especial porque mais de 150 invenções ocorreram na Idade Média, sem contar com o surgimento das grandes escolas filosóficas da Patrística e da Escolástica. Para os iluministas, em especial do século XVIII, a noção sobre Nossa Senhora, bem como a devoção mariana ficou marcada pela crítica racionalista que era feita à Igreja Católica, buscando desvincular a fé da esfera pública e política, em uma tentativa de desprezar a fé cristã e a mariologia. Enquanto isso, Agostinho trazia em suas obras “Nossa Senhora como uma figura central no plano de salvação”, foi ela que deu a luz que redimiu a humanidade, tão bem explanada por São João Paulo II na sua CARTA ENCÍCLICA sobre a Mãe do Redentor,
REDEMPTORIS MATER, ao dizer que “a MÃE DO REDENTOR tem um lugar bem preciso no plano da salvação”.

            Segundo o Dr. Daniel Cerqueira Afonso, diretor da Lócus, instituição educacional católica, “o Iluminismo, movimento intelectual do século XVIII, baseou-se na razão, liberdade individual e crítica ao absolutismo”. E este movimento teve como “principais pensadores John Locke (liberalismo), Voltaire (liberdade de expressão), Montesquieu (três poderes), Rousseau (soberania popular) e Adam Smith (liberalismo econômico), defendendo a ciência e a igualdade perante a lei”.

            Afirma, então, o Dr. Daniel que devemos analisar o Cristo-Logos e a “luz” angélica, segundo os fundamentos bíblico-patrísticos, e teremos então como bíblico o trecho que nos leva olhar para o “Fiat lux” descrito em Gn 1,3 que tem como “chave teológica da iluminação das criaturas espirituais”.

            O ser humano é criado por Deus com a luz, embora já houvesse as trevas nos anjos decaídos. Afirma então o Dr. Daniel que “A luz, nesse tratamento patrístico, não é apenas fenômeno cósmico, mas sinal de participação na Verdade. As trevas, por sua vez, indicam privação, recusa e afastamento”. Podemos concluir a angelologia do bem está voltada para a obediência e adoração de Deus, enquanto o anjo decaído, ao romper com a Luz afastou-se dela perdendo a graça.

            Uma questão importante é a definição da natureza e a da missão angélica. Afirma Dr. Daniel que “os anjos são apresentados como criaturas intelectuais, finitas, livres e luminosas por participação, nunca como realidades autônomas ou fontes próprias de luz”. Sua natureza e ofício na angeologia nos mostra que o “anjo” designa missão, envio, serviço. Portanto “o ministério angélico se expressa no anúncio, na proteção, no culto e no governo providente, sempre subordinado ao único Mediador”. 

            É importante rememorar a "curvatio in se" originada no pensamento de Santo Agostinho, aonde ele descreve a condição humana decaída e pecaminosa como o "homem curvado sobre si mesmo"

Para Agostinho de Hipona, “o pecado original não é apenas um erro pontual, mas uma "curvatura" da vontade. O ser humano, criado para se voltar para fora (para Deus e para o próximo), curva-se para dentro, colocando-se como o centro do seu próprio universo”, desvirtuando assim da essência da criação e colocando suas vontades e desejos acima da vontade do Criador. Agostinho de Hipona trás este conceito em suas principais obras: Confissões, A Cidade de Deus, Comentários sobre os Salmos e outras.

“Traspassaste meu coração com tua palavra e eu te amei.” (Agostinho de Hipona, Confessiones, 10.6.8)

“Que de ti me lembre, que te compreenda e que te ame! Faze-me crescer nesses dons, até que me reformes integralmente.” (Agostinho de Hipona, De Trinitate, 15.28.51)

SALVE MARIA SANTÍSSIMA!

REFERÊNCIAS

ANGEOLOGIA/DEMONOLOGIA. Módulo: Angeologia medieval. Pós graduação em Angeologia e Demonologia. Locus Mariologicus/ Faculdade São João Paulo II (FAJOPA)

AGOSTINHO, Santo. Confissões. Tradução de Frederico Ozanam Pessoa de Barros. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2017. 

Chiapa-Villarreal, Padre Hector. Orgulho, inveja e preguiça: os inimigos da caridade. Disponível em , com acesso em 06 maio 2026.

JOÃO PAULO II, Papa. Carta Encíclica Redemptoris Mater: sobre a bem-aventurada Virgem Maria na vida da Igreja que está a caminho. 25 de março de 1987.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

 

VOCÊ JA OUVIU FALAR EM ANGELOLOGIA DE DEUS


                 

         Diácono Paulo Gabriel Batista de Melo
          Capelania Nossa Senhora do Loreto
            Ordinariado Militar do Brasil – Parnamirim (RN)

 

                   A primeira vez que li a palavra “angelomaquia” foi na obra do escritor inglês John Milton. Ao analisarmos o léxico vemos que ela trem origem no grego angelos (anjo) e makhia (guerra/luta), fazendo uma referência literal à "guerra dos anjos", ou seja, os anjos decaídos. Essa batalha descrita no Livro do Apocalípse 12, ocorrida entre os anjos de Deus e os anjos caídos (frequentemente chamados de demônios), ou mais popularmente com a rebelião de Lúcifer. 

            Carvalho (2026, p. 130), afirma que os anjos foram testemunhas da encarnação, e que também anunciaram com alegria aos pastores e que ainda “Deus criou os anjos (criaturas espirituais invisíveis, não-corporais) para serem servidores de Seu plano de amor e para por eles também ser glorificado.

            A disciplina de Angeologia (ou também conhecida por angelologia) é o conteúdo da teologia cristã que estuda nos anjos a sua natureza, funções, existência e hierarquia como seres espirituais criados por Deus, segundo vemos relatados em quase todos os livros da Bíblia.

            Também o Magistério da Igreja através do Catecismo & 333, nos mostra que “da Encarnação à Ascenção, a vida do Verbo Encarnado é rodeada da adoração e serviço dos anjos”, logo precisamos ter um pouco de conhecimento sobre estes seres de Deus que nos ajudam em nossa caminhada enquanto Igreja Militante.

            Também pode ser visto em Tb 5,4 na versão grega: “ἐξῆλθεν δὲ Τωβίας εὑρεῖν ἄνθρωπον ὃς πορεύσεται μετ᾿ αὐτοῦ εἰς Μηδίαν καὶ εὗρεν Ῥαφαὴλ τὸν ἄγγελον ἑστηκότα οὐκ ᾔδει δὲ ὅτι ἄγγελός ἐστιν θεοῦ”. Cuja “Tradução literal (com glossas): ἐξῆλθεν (saiu) δὲ (porém) Τωβίας (Tobias) εὑρεῖν (para encontrar) ἄνθρωπον (um homem) ὃς (o qual) πορεύσεται (irá, caminhará) μετ᾿ (com) αὐτοῦ (ele) εἰς (para) Μηδίαν (Média) καὶ (e) εὗρεν (encontrou) Ῥαφαὴλ (Rafael) τὸν (o) ἄγγελον (anjo) ἑστηκότα (de pé, posto) οὐκ (não) ᾔδει (sabia) δὲ (porém) ὅτι (que) ἄγγελός (anjo) ἐστιν (é) θεοῦ (de Deus). Donde vemos no seu livro Tb 5,4 “Tobias saiu, porém, para encontrar um homem que iria com ele para a Média; e encontrou Rafael, o anjo, de pé, mas não sabia que ele é anjo de Deus.”

            Ainda em Tb 6, 1 vemos ““E o jovem saiu, e o anjo com ele; e o cão saiu com ele e caminhou com eles; e ambos caminharam, e sobreveio-lhes uma noite, e acamparam junto ao rio Tigre”.

            A amplitude do assunto perpassa ao aspecto histórico-religioso sobre a origem da crença em anjos, pois, a descrição de “seres espirituais intermediários não é exclusiva da Bíblia, mas atravessa praticamente todas as religiões humanas. Desde as religiões telúricas, celestes, animistas e xamânicas até sistemas mais estruturados”, logo, estas entidades sobrenaturais e superiores aos seres humanos, e bem distintos da divindade, atuam como mensageiro como o fizeram na Anunciação, a São José em sonho, a Jacó e tantos outros personagens bíblicos, eles desempenham uma missão como “mediadores, mensageiros ou protetores. Destaca-se, em especial, o dualismo religioso — sobretudo no zoroastrismo — como tentativa de responder ao problema do mal, exercendo influência decisiva sobre a posterior angeologia e demonologia bíblicas”, isso tudo pode ser visto em especial no período pós-exílico.

            Por isso, tenhamos um carinho por estes seres angelicais, especiais, como o nosso Anjo da Guarda. Deus nos deixou instrumentos de proteção que se bem usados nos favorecerão na nossa salvação e caminhada sobre a Terra. Que a Mãe Santíssima nos ajude nesta jornada com os Santos Anjos de Deus.

SALVE MARIA!

 

REFERÊNCIAS

CARVALHO, César e Carvalho, Mara. CONSAGRA-TE! A pequena via na Escravidão de amor. Na mística de São Luís Maria Grignion de Montfort & Santa Terezinha do Menino Jesus. Natal: Editora própria, 2026.

 

MILTON, John. Paraíso perdido. São Paulo: Martin Claret, 2025.

 

ANGELOLOGIA. Pós Graduação em angelologia. Portugal: Locus Mariologicus, 2026.

 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

 

MARIA SANTÍSSIMA A ARCA DA ALIANÇA



        Diácono Paulo Gabriel Batista de Melo
           Capelania Nossa Senhora do Loreto
            Ordinariado Militar do Brasil – Parnamirim (RN)

 

Creio seja salutar começar este artigo citando Saint-Exupéry, “as sementes são invisíveis. Elas dormem no segredo da terra até que uma delas cisma de despertar”. A Mãe do Redentor, Maria Santíssima era a virgem do silêncio, que como as sementes iria florescer e se tornar a mais bela das santas de Deus, como uma semente no silêncio, as vezes até do Evangelho, ela hoje brilha como a lua, que reflete o sol pelo brilho de seu filho, como é também chamado Jesus na teologia.

Poucos católicos estudam Mariologia com o amor que deveria, e deixam de conhecer a grande pérola que Deus nos apresentou, sua Mãe, e ainda citando Exupéry, “é o tempo que você perdeu com a rosa que a tornou tão importante”, conhecer a Torre de Davi, a nova Arca da Aliança que carregou o próprio Deus é conhecer Jesus, que a escolheu por Mãe, por sua vontade.

Não foi por lapso da Igreja, mas por talvez preguiça nossa que deixamos de conhecer a Mãe do Salvador, a Igreja Católica através de papas e concílios proclamaram quatro dogmas marianos, “a Maternidade Divina, a Virgindade Perpétua, o Dogma da Imaculada Conceição e o da Assunção de Maria Santíssima”, pois como disse o Evangelista São Mateus “a origem de Jesus, o Cristo, foi assim: Maria sua Mãe” Cf Mt 1, 18, obviamente porque assim quis Deus e não O podemos contestar, não há dignidade em nós para isso.

Com sua poderosa intercessão apresentada nas expressões joaninas “Filho eles não tem mais vinho” e “façam tudo o que Ele mandar”, vimos que ela é o canal seguro para se chegar a Deus, não é uma devoção infantil, mas uma escolha de um caminhar seguro. As vezes penso que os pobres são mais sábios que os doutores, pois São Luís Maria Grinion de Montfort ao escrever o Tratado da Verdadeira Devoção a Nossa Senhora afirma no parágrafo & 26 que “os pobres e os simples que, tendo maior boa vontade e mais fé, que o comum dos sábios, creem mais simplesmente e com mais mérito”, motivo pelo qual creio que mais douto seja quem mais ama a Mãe do Salvador.

            O Santo Padre Paulo VI em sua Carta Encíclica ‘Mense Maio’ nos disse que “Maria é o caminho que nos leva a Cristo”, e assim como os Concílios e os santos doutores da Igreja a devoção maria é a linha comum entre todos eles, quando o Santo Padre assim a redigiu estava ocorrendo o Concílio Vaticano II.

            Um grande Santo e Doutor da Igreja, Santo Agostinho, assim se expressou “não sendo o mundo digno de receber o Filho de Deus diretamente das mãos do Pai, este o deu a Maria, para que os homens O recebessem por ela”. Assim disse São Montefort.  

            Bem disse o filósofo Epiteto que “se, então, você almeja coisas grandes, lembre-se de que não deve tentar agarrá-las com um mínimo de esforço”. Assim sendo a Igreja nos dá com largueza de literatura um grande amor mariano, não podemos dizer que há pouca informação depois de toda História da Igreja, rememoro, novamente Epiteto “é a ação de alguém mal instruído culpar os outros por sua própria má condição”, somos nós que devemos estudar os santos, os documentos da Igreja, buscar na teologia o conhecimento que aumenta a nossa fé.

            Encontramos nos documentos pontifícios da Idade Média dois santos de grande veneração a Nossa Senhora, São Gregório e Santo Agostinho, e o documento diz que “São Gregório é para a moral e a edificação das almas aquilo que Santo Agostinho de Hipona foi para o Dogma”. Logo, devemos buscar nestes santos e na Igreja o caminho de santidade que sempre aflorou na Mãe do Redentor.

SALVE MARIA!

 

REFERÊNCIAS

CARVALHO, César e Carvalho, Mara. Consagra-te: As Bem aventuranças e o Tratado da Verdadeira Devoção. Natal: Mater Dei, 2012.

 

DOCUMENTOS PONTIFÍCIOS: Idade Média. Rio de Janeiro: Ed. CDB, 2024.

 

EPITETO. O manual de Epiteto e uma seleção de discursos. Jandira, SP: Principis, 2021.

 

PAULO VI, Papa. Carta Encíclica Mense Maio. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 29 abr. 1965. Disponível em: https://www.vatican.va/content/paul-vi/pt/encyclicals/documents/hf_p-vi_enc_29041965_mense-maio.html. Acesso em 23 setembro de 2023.

 

SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. O Pequeno Príncipe. 48. ed. Rio de Janeiro: Agir, 2009.

 

Bíblia católica. Disponível em https://www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria/i-timoteo/4/

 

 

 

 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

 

APARIÇÕES MARIANAS



Diácono Paulo Gabriel Batista de Melo
                       Capelania Nossa Senhora do Loreto
            Ordinariado Militar do Brasil – Parnamirim (RN)

                    A capacidade de refletir, Deus a deu apenas ao homem. No clássico "Apologia de Sócrates", Platão ao escrever a vida e obra de seu mestre Sócrates, nos lembra que “uma vida que não é refletida não vale a pena ser vivida”, desta forma, possamos refletir as motivações marianas de suas aparições.

          Segundo Fonseca (1994, p. 26), de 1928 até 1972 “divulgaram-se 232 aparições de Nossa Senhora”, a maior motivação, segundo o autor, para todas estas aparições é uma Mãe preocupada e atenta aos riscos que sofrem seus filhos, com a “degradação moral dos costumes”. Em suas aparições, a Santíssima Virgem pede orações e penitências, para evitar os justos castigos de Deus. Para se ter uma ideia, poucas são as aparições marianas na Idade Média.

          A Mãe de Deus e nossa, segundo Fonseca (1994, p. 32), possui mais de mil títulos, dentre eles “Arca da Aliança, Torre de Davi, Velo de Gedeão” e outros mais. A Igreja não costuma festejar o dia do nascimento dos santos, e sim o dia de sua morte, já que é o dia em que se nasce para a verdadeira vida. Porém, ela abre exceção para três santos: Jesus Cristo nosso Redentor, João Batista, o precursor de Jesus e Maria Santíssima sua mãe, mostrando um destaque todo especial para as inúmeras festas e solenidade, mais os dogmas proclamados pela Igreja para a Mãe do Filho de Deus.

          Em uma destas aparições, na localidade de La Salette, no sudoeste da França, região montanhosa, no dia 19 de setembro, Ela aparece a dois pastorinhos, “Melania Calvat com 15 anos e Maximino Giraud de 11 anos”, “a Mãe de Deus aparece a chorar, sentada na amurada da fonte de água, com os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos espalmadas sobre o rosto”, e o motivo de seu choro é a falta de conversão dos seus filhos que tanto ela ama, e entre os pecados mais graves que fazem pesar a mão de Deus sobre nós, ela cita: “blasfêmias, desrespeito ao repouso dominical, o esquecimento da obrigação da assistência a Missa, principalmente nos domingos e dias de grandes festas (dias dos santos), bem como o descaso das obrigações da Quaresma”, a Mãe aconselha as crianças que rezem ao deitar-se e ao levantarem-se.

          Hoje vimos o que a França, filha primogênita do Catolicismo tornou-se, por isso a Vigem Santa aparece 18 vezes naquele país, como um aviso de súplica de conversão. Entre as principais aparições na França temos Nossa Senhora de Laus (Notre-Dame du Laus), Nossa Senhora da Medalha Milagrosa (Paris), Nossa Senhora de La Salette, Nossa Senhora de Lourdes e Nossa Senhora de Pontmain.

          Como nos lembra o filósofo grego, Epiteto (2021, p. 12), “se você deseja, almeja coisas grandes, lembre-se de que não deve tentar agarrá-las com um mínimo esforço”, quem deseja o céu, deve “combater o bom combate”, ou como nos lembra o maior o orador romano Cícero (2021, p. 17), “as armas mais bem adaptadas a velhice são a cultura e o exercício ativo das virtudes”, um homem e mulher virtuosos, trilham uma estrada espinhosa, porém santa e que agrada a Deus, uma vez que a humanidade já por demais O ofendeu.

          Que a Mãe Santíssima nos ajude em nosso caminhar rumo ao céu.

SALVE MARIA SANTÍSSIMA!

REFERÊNCIAS

CÍCERO, Marco Túlio. Para saber envelhecer e a amizade. Jandira, SP: Principis, 2021.

EPITETO. O manual de Epiteto e uma seleção de discursos. Jandira, SP: Principis, 2021.

FONSECA, Mário. Miryam. João Pessoa: Ed. União, 1994.

PLATÃO. Apologia de Sócrates. Tradução de André Malta. Porto Alegre: L&PM, 2008.

Também publicado em:

C A D NATAL: APARIÇÕES MARIANAS (Diác. Paulo Gabriel)


sexta-feira, 3 de outubro de 2025

 

CONHECE-TE A TI MESMO


                                                    Diácono Paulo Gabriel Batista de Melo
                                                     Capelania Nossa Senhora do Loreto
                                          Ordinariado Militar do Brasil – Parnamirim (RN)

O conhecimento de nós mesmos passa inevitavelmente pela busca da verdade que é Cristo. Esse conhecimento tem sua origem nas Sagradas Escrituras, que nos é recomendado buscar, em especial aos sacerdotes e diáconos, como afirma a Dei Verbum & 25, endossando as palavras de São Gerônimo que afirmava “a ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo”, recomendando o Santo Concílio que aqueles que todos aqueles que  “se consagram legitimamente ao ministério da palavra, mantenham um contacto íntimo com as Escrituras, mediante a leitura assídua”. Sem conhecer Deus não se pode conhecer a si próprio.

            Porém, para buscar a Deus é necessário o Santo Silêncio, o recolhimento, como buscou Moisés deixando o rebanho para se encontrar com Deus na sarça, e muitas vezes Jesus, como disse Sarah (2017, p. 53, &41), “Cristo viveu trinta anos em silêncio. Depois, ao longo de sua vida pública, retirou-se ao deserto para ouvir e falar com o Pai. O mundo tem necessidade vital de pessoas que saiam para o deserto, pois Deus fala no silêncio”, o mundo é muito barulhento e nos dificulta o encontro com Deus, por isso o sacerdote é retirado do mundo para o silêncio pelo celibato.

            Sun Tzu foi um general, estrategista e filósofo chinês, que afirmou em sua obra a Arte da guerra, "Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhece, mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofrerá também uma derrota. Se você não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas". Ainda a filosofia nos faz refletir tão grande monta em um aforismo grego, escrito no pórtico de Delfos, muito usado pelo filósofo clássico Sócrates “conhece-te a ti mesmo”.

            Afirma o grande Doutor da Igreja São Francisco de Sales em sua obra Filoteia que “a verdadeira devoção nada destrói; ao contrário, tudo aperfeiçoa”, e complementa “põe-te na presença de Deus e pede-O que te inspire”, sem essa busca interior por Deus não atingiremos uma devoção perfeita.

Também Santo Agostinho Doutor da Igreja, no Solilóquio do amor descrito na obra Confissões (Lv 10, p. 302), nos diz “Tarde te amei, Beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! E, no entanto, estavas dentro de mim, e eu fora, a te procurar!”.

Dentre as quatro santas doutoras de nossa Igreja, uma em especial, que gosto muito é Tereza de Ávila, ela afirma em sua obra nas quartas Moradas p. 74, que “o certo é que para buscar a Deus no íntimo da alma, onde melhor o encontramos, e com mais proveito que nas criaturas, a exemplo de Santo Agostinho, que o achou em si depois de o ter procurado em muitas partes”. Como disseram esses baluartes de nossa Igreja, acharemos Deus em nós, por isso a premente necessidade de nos conhecermos.

Disse Jesus “conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”, Cf. Jo 8, 32, pois, Ele é a verdade e está dentro de nós, logo, se não nos conhecermos não conheceremos Deus, e sem conhecer Deus também não é possível que nos conheçamos. Espinhosa como o Gólgota é a estrada do conhecimento de si mesmo, porque somos obrigados a enfrentar nossos medos, anseios, temores, fragilidades.

Hoje algo muito refletido nos congressos, em especial da psicanálise e logoterapia, como forma de prevenção ao suicídio é o autoconhecimento. São Paulo nos exorta a conhecer a “mente de Cristo”, Cf. 1Cor 2, 16. Visto que, sabendo quem é Deus eu sei quem sou, “nós pensamos como Cristo pensa”, também nos alerta o profeta Oseias “meu povo foi destruído por falta de conhecimento”, Cf. Os 4, 6. Creio seja ainda pior quando não temos o conhecimento de quem nós somos.

Salve Maria Santíssima”

 

REFERÊNCIAS

AGOSTINHO, Santo. Confissões. Tradução de Frederico Ozanam Pessoa de Barros. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2017. 

ÁVILA, Tereza de. Castelo interior ou moradas. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2024. 

DV - CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA DEI VERBUM SOBRE A REVELAÇÃO DIVINA. & 25.

Francisco, de Sales, Santo. Filoteia: introdução a vida devota. Petrópolis: Vozes, 2024.

SARAH, Robert. A Força do Silêncio: Contra a Ditadura do Ruído. Paulus Editora, 2017.

Sun Tzu. A Arte Da Guerra. São Paulo: Editorial Plenitude Distribuidora, 2024

domingo, 15 de junho de 2025

 

SEDE SANTOS                   


 

         Diácono Paulo Gabriel Batista de Melo
      Capelania Nossa Senhora do Loreto
            Ordinariado Militar do Brasil – Parnamirim (RN)

O Livro Sagrado nos mostra que fomos criados a imagem e semelhança de Deus, para sermos santos como Ele é. Porém em dado momento, nossos primeiros pais pecaram, e herdamos a mácula do pecado original.

            A expressão bíblica "sede santos, porque eu sou santo" é um chamado à santidade que está presente na Bíblia, em Levítico 11, 44-45 encontramos “Pois eu sou o Senhor, vosso Deus. Vós vos santificareis e sereis santos, porque eu sou santo”, e 1 Pedro 1, 15-16 também encontramos “A exemplo da santidade daquele que vos chamou, sede também vós santos em todas as vossas ações, pois está escrito: Sede santos, porque eu sou santo”.

            Que a Mãe Santíssima, modelo de santidade nos ajude e nos conduza pelo mesmo caminho que foram conduzidos os santos de nossa igreja, para talvez podermos ser considerados dignos do Santo Evangelho, moldados por seu infinito amor de mãe, ela que em sua profunda humildade, a cheia da graça, de tantas virtudes tudo tinha por graça de Deus.

            Arminjon (2021), obra que despertou a santidade e vocação para freira da jovem Santa Terezinha do Menino Jesus, citado por ela mesma em “História de uma alma”, nos diz: “Nós os consagrados a Deus, não somos deste mundo, mas que do mundo fomos escolhidos para ser mensageiros do Evangelho”. É premente a necessidade de pensarmos com o coração e a alma em duas palavras – JUSTIÇA e SANTIDADE -  toda nossa vida será santificada se colocarmos em práticas de corpo e alma estas duas palavras, que estão em meu lema de ordenação guardado por mim com carinho, e tantas vezes dito pelo nosso reitor da Escola Diaconal no Rio de Janeiro Padre Lindemberg.

            Essa santidade, perpassa por uma obediência cega, outra virtude forte de Nossa Senhora, como diz Carvalho (2012, p. 34) “envolvido pela obediência cega, virtude que a Virgem Maria honrou quando cumpriu o mandamento “amarás o Senhor Deus de todo o teu coração”, a perfeição encontraremos ao nos moldarmos a Jesus em Maria sua amada Mãe.

            O discípulo amado nos lembra em seu Evangelho que “se fôsseis do mundo, o mundo vos amaria como sendo seus. Como, porém, não sois do mundo, mas do mundo vos escolhi, por isso o mundo vos odeia”, Cf Jo 15, 19, estamos na contra mão do mundo, devemos buscar a santidade, mas o mundo não nos tolerará. E como disse Santa Tereza de Calcutá, “quer ser perfeito? Vá para casa, ame sua família e seja paciente com ela”, pois, a nossa maior catequese será em nossas casas, uma catequese da porta da sala à porta da cozinha, o amor nos julgará, pois, Deus é amor e amou o mundo de tal forma que nos deu seu Filho único. Amai-vos uns aos outros, no disse Jesus no Evangelho de João 13, 34 “Dou-vos um novo mandamento: Amai-vos uns aos outros. Como eu vos tenho amado, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros”.

            Lembre-se amado irmão e irmã das palavras de São Francisco, “pregai! Se necessário use palavras”, pois, estamos pregando com a vida, talvez você seja o único evangelho que alguém esteja lendo.

Ainda nos fala ao coração o Apóstolo Missionário São Paulo Cf. 2Cor 4, 6 “Porque Deus que disse: ‘Das trevas brilhe a luz’, é também aquele que fez brilhar a sua luz em nossos corações, para que irradiássemos o conhecimento do esplendor de Deus, que se reflete na face de Cristo”. Logo, mesmo no mundo sejamos sal e luz, não deixemos que a escurão nos cubra, não pode uma lamparina ser escondida em baixo da mesa, ela deve alumiar o mundo, quanto menor a luz mais brilhará na escuridão.

Estejamos de prontidão repetindo em cada Santa Missa “Vinde Senhor Jesus!”

 

REFERÊNCIA

ARMINJON, Charles. Do fim do mundo, dos sinais que o precederão. Osasco – SP: Domine, 2021.

CARVALHO, César e Carvalho, Mara, Consagra-te: devocionário. Natal: Mater Dei, 2012.

sexta-feira, 2 de maio de 2025

 

É PRECISO CONHECER PARA AMAR: O PRECURSOR DO REDENTOR



Diácono Paulo Gabriel Batista de Melo
Capelania Nossa Senhora do Loreto
            Ordinariado Militar do Brasil – Parnamirim (RN)

No dia seguinte, João viu Jesus que vinha a ele e disse: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. É este de quem eu disse: Depois de mim virá um homem, que me é superior, porque existe antes de mim.

Jo 1, 29s

 

          Para amar nós precisamos conhecer, por isso o namoro é um passo em que os casais se conhecem e é muito importante esta fase, também a Dei Verbum nos diz que “o desconhecimento das escrituras é o desconhecimento do próprio Deus”. Isso no nosso país passa a ser um problema a ser corrigido. Enquanto o francês lê em média 20 livros por ano, o americano também com índices próximos a eles, nós brasileiros temos uma terrível média de dois livros por ano, então fazer o povo ler será o nosso maior desafio.

Muitos já se debruçaram sobre a biografia de Jesus Cristo, dentre eles, Bentencourt, Ratzinger, Lewis e Pagola  e porque isso? Porque a nossa religião é cristológica, cristocêntrica, e muitas são as fontes para buscarmos o conhecimento de Jesus (o homem) e por sua união hipostática o Cristo (Deus encarnado no seio da Virgem Maria), por vontade e obra de Deus.

O Papa Francisco, no seu Angelus do dia 23 de março de 2025[1], nos apresenta como temática do Evangelho do dia a ‘paciência’, de um Deus que não quer cortar a figueira, ainda que a mesma não esteja dando fruto. Encolerizados, os apóstolos queriam descer fogo sobre uma cidade e Jesus lhes disse: “Eu vim para salvar, e não para condenar”, logo Deus usa de todos os instrumentos para salvar seus filhos.

 

A parábola que encontramos no Evangelho de hoje fala-nos da paciência de Deus, que nos impele a fazer da nossa vida um tempo de conversão. Jesus usa a imagem de uma figueira estéril, que não deu os frutos esperados e que, no entanto, o agricultor não quer cortar: quer adubá-la de novo para ver «se dará frutos na próxima estação» (Lc 13, 9). Este agricultor paciente é o Senhor, que trabalha com cuidado o solo da nossa vida e espera com confiança o nosso regresso a Ele.

 

          É necessário conhecer Deus. São Gerônimo, afirma que se não conhecemos a Palavra de Deus não podemos dizer que conhecemos a Deus. A Constituição Dogmática Dei Verbum, também endossa essa mesma afirmação, ao dizer que “O sagrado Concílio professa que Deus, princípio e fim de todas as coisas, se pode conhecer com certeza, pela luz natural da razão a partir das criaturas» (cfr. Rom. 1,20)”.

          Os padres conciliares assim acharam por bem dividir a Constituição Dogmática[2]:

1.     CAPÍTULO I - A REVELAÇÃO EM SI MESMA

2.     CAPÍTULO II - A TRANSMISSÃO DA REVELAÇÃO DIVINA

3.     CAPÍTULO III - A INSPIRAÇÃO DIVINA DA SAGRADA ESCRITURA
E A SUA INTERPRETAÇÃO

4.     CAPÍTULO IV - O ANTIGO TESTAMENTO

5.     CAPÍTULO V - O NOVO TESTAMENTO

6.     CAPÍTULO VI - A SAGRADA ESCRITURA NA VIDA DA IGREJA

 

          Afirma também, no parágrafo 4, que vivemos os últimos tempos, esperando a Sua vinda gloriosa, “Depois de ter falado muitas vezes e de muitos modos pelos profetas, falou-nos Deus nestes nossos dias, que são os últimos, através de Seu Filho” Cf. Heb. 1, 1-2.

          Segundo o Santo Concílio, “Com efeito, enviou o Seu Filho, isto é, o Verbo eterno, que ilumina todos os homens, para habitar entre os homens e manifestar-lhes a vida íntima de Deus” Cf. Jo. 1, 1-18, vimos assim que está a nossa fé, e a fé que recebemos de nossos pais e da igreja, centrada em Cristo.

          Nos lembra ainda os padres conciliares que “[…] a sagrada Tradição, a sagrada Escritura e o magistério da Igreja, [...] sob a ação do mesmo Espírito Santo, contribuem eficazmente para a salvação das almas”, que é a missão da Igreja.

          Ainda citando Timóteo, bispo, no tempo dos Padres apostólicos, o Concílio afirma que “os livros da Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem erro a verdade que Deus, para nossa salvação, quis que fosse consignada nas sagradas Letras”, elas não contém erro, é a verdade suprema porque foram inspirados por Deus.

 

Toda a Escritura é divinamente inspirada e útil para ensinar, para corrigir, para instruir na justiça: para que o homem de Deus seja perfeito, experimentado em todas as obras boas. Cf Tm. 3, 7-17.

         

          Somos convidados a entender que “Com efeito, tudo quanto diz respeito à interpretação da Escritura, está sujeito ao juízo último da Igreja”, é a Igreja que a autorização de interpretar as Sagradas Escrituras, a ela foi confiado por Jesus, conforme descreveu o Santo Concílio que ela “tem o divino mandato e o ministério de guardar e interpretar a palavra de Deus”.

 

Referências

BENTENCOURT, Estevão. Cristologia. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 2009.

RATZINGER, Joseph. PP Bento XVI. Jesus de Nazaré: da entrada em Jerusalém até a ressurreição. São Paulo: Planeta, 2011.

https://www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria/sao-mateus/1/ acesso em 09 fevereiro de 2025.

LEWIS, C. S. Cristianismo puro e simples. Rio de Janeiro: Editora Thomas Nelson Brasil, 2017.

PAGOLA, José Antonio. Jesus uma aproximação histórica. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.

João Batista. Disponível em https://www.ebiografia.com/joao_batista/acesso em 12/03/2025.

Angelus do dia 23 de março.https://www.vatican.va/content/francesco/pt/angelus/2025/documents/20250323-angelus.html disponível em 24 de março de 2025.

 

 

 



[1] Angelus do dia 23 de março.https://www.vatican.va/content/francesco/pt/angelus/2025/documents/20250323-angelus.html disponível em 24 de março de 2025.

 

[2] Fonte:https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651118_dei-verbum_po.html disponível em 24 de março de 2025