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quarta-feira, 6 de maio de 2026

 

ANGEOLOGIA NO MEDIEVO


 

         Diácono Paulo Gabriel Batista de Melo
       Capelania Nossa Senhora do Loreto
            Ordinariado Militar do Brasil – Parnamirim (RN)

 

            Aos olhos dos iluministas, a Idade Média foi um período de trevas, mas este conceito já foi revisado como inconsistente por bons historiadores como Jacques Le Goff, Hilário Franco Júnior, Pierre Duhem, Lynn Thorndike e poderíamos citar uma plêiade deles que não aceitaram essa afirmação iluminista, em especial porque mais de 150 invenções ocorreram na Idade Média, sem contar com o surgimento das grandes escolas filosóficas da Patrística e da Escolástica. Para os iluministas, em especial do século XVIII, a noção sobre Nossa Senhora, bem como a devoção mariana ficou marcada pela crítica racionalista que era feita à Igreja Católica, buscando desvincular a fé da esfera pública e política, em uma tentativa de desprezar a fé cristã e a mariologia. Enquanto isso, Agostinho trazia em suas obras “Nossa Senhora como uma figura central no plano de salvação”, foi ela que deu a luz que redimiu a humanidade, tão bem explanada por São João Paulo II na sua CARTA ENCÍCLICA sobre a Mãe do Redentor,
REDEMPTORIS MATER, ao dizer que “a MÃE DO REDENTOR tem um lugar bem preciso no plano da salvação”.

            Segundo o Dr. Daniel Cerqueira Afonso, diretor da Lócus, instituição educacional católica, “o Iluminismo, movimento intelectual do século XVIII, baseou-se na razão, liberdade individual e crítica ao absolutismo”. E este movimento teve como “principais pensadores John Locke (liberalismo), Voltaire (liberdade de expressão), Montesquieu (três poderes), Rousseau (soberania popular) e Adam Smith (liberalismo econômico), defendendo a ciência e a igualdade perante a lei”.

            Afirma, então, o Dr. Daniel que devemos analisar o Cristo-Logos e a “luz” angélica, segundo os fundamentos bíblico-patrísticos, e teremos então como bíblico o trecho que nos leva olhar para o “Fiat lux” descrito em Gn 1,3 que tem como “chave teológica da iluminação das criaturas espirituais”.

            O ser humano é criado por Deus com a luz, embora já houvesse as trevas nos anjos decaídos. Afirma então o Dr. Daniel que “A luz, nesse tratamento patrístico, não é apenas fenômeno cósmico, mas sinal de participação na Verdade. As trevas, por sua vez, indicam privação, recusa e afastamento”. Podemos concluir a angelologia do bem está voltada para a obediência e adoração de Deus, enquanto o anjo decaído, ao romper com a Luz afastou-se dela perdendo a graça.

            Uma questão importante é a definição da natureza e a da missão angélica. Afirma Dr. Daniel que “os anjos são apresentados como criaturas intelectuais, finitas, livres e luminosas por participação, nunca como realidades autônomas ou fontes próprias de luz”. Sua natureza e ofício na angeologia nos mostra que o “anjo” designa missão, envio, serviço. Portanto “o ministério angélico se expressa no anúncio, na proteção, no culto e no governo providente, sempre subordinado ao único Mediador”. 

            É importante rememorar a "curvatio in se" originada no pensamento de Santo Agostinho, aonde ele descreve a condição humana decaída e pecaminosa como o "homem curvado sobre si mesmo"

Para Agostinho de Hipona, “o pecado original não é apenas um erro pontual, mas uma "curvatura" da vontade. O ser humano, criado para se voltar para fora (para Deus e para o próximo), curva-se para dentro, colocando-se como o centro do seu próprio universo”, desvirtuando assim da essência da criação e colocando suas vontades e desejos acima da vontade do Criador. Agostinho de Hipona trás este conceito em suas principais obras: Confissões, A Cidade de Deus, Comentários sobre os Salmos e outras.

“Traspassaste meu coração com tua palavra e eu te amei.” (Agostinho de Hipona, Confessiones, 10.6.8)

“Que de ti me lembre, que te compreenda e que te ame! Faze-me crescer nesses dons, até que me reformes integralmente.” (Agostinho de Hipona, De Trinitate, 15.28.51)

SALVE MARIA SANTÍSSIMA!

REFERÊNCIAS

ANGEOLOGIA/DEMONOLOGIA. Módulo: Angeologia medieval. Pós graduação em Angeologia e Demonologia. Locus Mariologicus/ Faculdade São João Paulo II (FAJOPA)

AGOSTINHO, Santo. Confissões. Tradução de Frederico Ozanam Pessoa de Barros. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2017. 

Chiapa-Villarreal, Padre Hector. Orgulho, inveja e preguiça: os inimigos da caridade. Disponível em , com acesso em 06 maio 2026.

JOÃO PAULO II, Papa. Carta Encíclica Redemptoris Mater: sobre a bem-aventurada Virgem Maria na vida da Igreja que está a caminho. 25 de março de 1987.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

 

VOCÊ JA OUVIU FALAR EM ANGELOLOGIA DE DEUS


                 

         Diácono Paulo Gabriel Batista de Melo
          Capelania Nossa Senhora do Loreto
            Ordinariado Militar do Brasil – Parnamirim (RN)

 

                   A primeira vez que li a palavra “angelomaquia” foi na obra do escritor inglês John Milton. Ao analisarmos o léxico vemos que ela trem origem no grego angelos (anjo) e makhia (guerra/luta), fazendo uma referência literal à "guerra dos anjos", ou seja, os anjos decaídos. Essa batalha descrita no Livro do Apocalípse 12, ocorrida entre os anjos de Deus e os anjos caídos (frequentemente chamados de demônios), ou mais popularmente com a rebelião de Lúcifer. 

            Carvalho (2026, p. 130), afirma que os anjos foram testemunhas da encarnação, e que também anunciaram com alegria aos pastores e que ainda “Deus criou os anjos (criaturas espirituais invisíveis, não-corporais) para serem servidores de Seu plano de amor e para por eles também ser glorificado.

            A disciplina de Angeologia (ou também conhecida por angelologia) é o conteúdo da teologia cristã que estuda nos anjos a sua natureza, funções, existência e hierarquia como seres espirituais criados por Deus, segundo vemos relatados em quase todos os livros da Bíblia.

            Também o Magistério da Igreja através do Catecismo & 333, nos mostra que “da Encarnação à Ascenção, a vida do Verbo Encarnado é rodeada da adoração e serviço dos anjos”, logo precisamos ter um pouco de conhecimento sobre estes seres de Deus que nos ajudam em nossa caminhada enquanto Igreja Militante.

            Também pode ser visto em Tb 5,4 na versão grega: “ἐξῆλθεν δὲ Τωβίας εὑρεῖν ἄνθρωπον ὃς πορεύσεται μετ᾿ αὐτοῦ εἰς Μηδίαν καὶ εὗρεν Ῥαφαὴλ τὸν ἄγγελον ἑστηκότα οὐκ ᾔδει δὲ ὅτι ἄγγελός ἐστιν θεοῦ”. Cuja “Tradução literal (com glossas): ἐξῆλθεν (saiu) δὲ (porém) Τωβίας (Tobias) εὑρεῖν (para encontrar) ἄνθρωπον (um homem) ὃς (o qual) πορεύσεται (irá, caminhará) μετ᾿ (com) αὐτοῦ (ele) εἰς (para) Μηδίαν (Média) καὶ (e) εὗρεν (encontrou) Ῥαφαὴλ (Rafael) τὸν (o) ἄγγελον (anjo) ἑστηκότα (de pé, posto) οὐκ (não) ᾔδει (sabia) δὲ (porém) ὅτι (que) ἄγγελός (anjo) ἐστιν (é) θεοῦ (de Deus). Donde vemos no seu livro Tb 5,4 “Tobias saiu, porém, para encontrar um homem que iria com ele para a Média; e encontrou Rafael, o anjo, de pé, mas não sabia que ele é anjo de Deus.”

            Ainda em Tb 6, 1 vemos ““E o jovem saiu, e o anjo com ele; e o cão saiu com ele e caminhou com eles; e ambos caminharam, e sobreveio-lhes uma noite, e acamparam junto ao rio Tigre”.

            A amplitude do assunto perpassa ao aspecto histórico-religioso sobre a origem da crença em anjos, pois, a descrição de “seres espirituais intermediários não é exclusiva da Bíblia, mas atravessa praticamente todas as religiões humanas. Desde as religiões telúricas, celestes, animistas e xamânicas até sistemas mais estruturados”, logo, estas entidades sobrenaturais e superiores aos seres humanos, e bem distintos da divindade, atuam como mensageiro como o fizeram na Anunciação, a São José em sonho, a Jacó e tantos outros personagens bíblicos, eles desempenham uma missão como “mediadores, mensageiros ou protetores. Destaca-se, em especial, o dualismo religioso — sobretudo no zoroastrismo — como tentativa de responder ao problema do mal, exercendo influência decisiva sobre a posterior angeologia e demonologia bíblicas”, isso tudo pode ser visto em especial no período pós-exílico.

            Por isso, tenhamos um carinho por estes seres angelicais, especiais, como o nosso Anjo da Guarda. Deus nos deixou instrumentos de proteção que se bem usados nos favorecerão na nossa salvação e caminhada sobre a Terra. Que a Mãe Santíssima nos ajude nesta jornada com os Santos Anjos de Deus.

SALVE MARIA!

 

REFERÊNCIAS

CARVALHO, César e Carvalho, Mara. CONSAGRA-TE! A pequena via na Escravidão de amor. Na mística de São Luís Maria Grignion de Montfort & Santa Terezinha do Menino Jesus. Natal: Editora própria, 2026.

 

MILTON, John. Paraíso perdido. São Paulo: Martin Claret, 2025.

 

ANGELOLOGIA. Pós Graduação em angelologia. Portugal: Locus Mariologicus, 2026.

 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

 

MARIA SANTÍSSIMA A ARCA DA ALIANÇA



        Diácono Paulo Gabriel Batista de Melo
           Capelania Nossa Senhora do Loreto
            Ordinariado Militar do Brasil – Parnamirim (RN)

 

Creio seja salutar começar este artigo citando Saint-Exupéry, “as sementes são invisíveis. Elas dormem no segredo da terra até que uma delas cisma de despertar”. A Mãe do Redentor, Maria Santíssima era a virgem do silêncio, que como as sementes iria florescer e se tornar a mais bela das santas de Deus, como uma semente no silêncio, as vezes até do Evangelho, ela hoje brilha como a lua, que reflete o sol pelo brilho de seu filho, como é também chamado Jesus na teologia.

Poucos católicos estudam Mariologia com o amor que deveria, e deixam de conhecer a grande pérola que Deus nos apresentou, sua Mãe, e ainda citando Exupéry, “é o tempo que você perdeu com a rosa que a tornou tão importante”, conhecer a Torre de Davi, a nova Arca da Aliança que carregou o próprio Deus é conhecer Jesus, que a escolheu por Mãe, por sua vontade.

Não foi por lapso da Igreja, mas por talvez preguiça nossa que deixamos de conhecer a Mãe do Salvador, a Igreja Católica através de papas e concílios proclamaram quatro dogmas marianos, “a Maternidade Divina, a Virgindade Perpétua, o Dogma da Imaculada Conceição e o da Assunção de Maria Santíssima”, pois como disse o Evangelista São Mateus “a origem de Jesus, o Cristo, foi assim: Maria sua Mãe” Cf Mt 1, 18, obviamente porque assim quis Deus e não O podemos contestar, não há dignidade em nós para isso.

Com sua poderosa intercessão apresentada nas expressões joaninas “Filho eles não tem mais vinho” e “façam tudo o que Ele mandar”, vimos que ela é o canal seguro para se chegar a Deus, não é uma devoção infantil, mas uma escolha de um caminhar seguro. As vezes penso que os pobres são mais sábios que os doutores, pois São Luís Maria Grinion de Montfort ao escrever o Tratado da Verdadeira Devoção a Nossa Senhora afirma no parágrafo & 26 que “os pobres e os simples que, tendo maior boa vontade e mais fé, que o comum dos sábios, creem mais simplesmente e com mais mérito”, motivo pelo qual creio que mais douto seja quem mais ama a Mãe do Salvador.

            O Santo Padre Paulo VI em sua Carta Encíclica ‘Mense Maio’ nos disse que “Maria é o caminho que nos leva a Cristo”, e assim como os Concílios e os santos doutores da Igreja a devoção maria é a linha comum entre todos eles, quando o Santo Padre assim a redigiu estava ocorrendo o Concílio Vaticano II.

            Um grande Santo e Doutor da Igreja, Santo Agostinho, assim se expressou “não sendo o mundo digno de receber o Filho de Deus diretamente das mãos do Pai, este o deu a Maria, para que os homens O recebessem por ela”. Assim disse São Montefort.  

            Bem disse o filósofo Epiteto que “se, então, você almeja coisas grandes, lembre-se de que não deve tentar agarrá-las com um mínimo de esforço”. Assim sendo a Igreja nos dá com largueza de literatura um grande amor mariano, não podemos dizer que há pouca informação depois de toda História da Igreja, rememoro, novamente Epiteto “é a ação de alguém mal instruído culpar os outros por sua própria má condição”, somos nós que devemos estudar os santos, os documentos da Igreja, buscar na teologia o conhecimento que aumenta a nossa fé.

            Encontramos nos documentos pontifícios da Idade Média dois santos de grande veneração a Nossa Senhora, São Gregório e Santo Agostinho, e o documento diz que “São Gregório é para a moral e a edificação das almas aquilo que Santo Agostinho de Hipona foi para o Dogma”. Logo, devemos buscar nestes santos e na Igreja o caminho de santidade que sempre aflorou na Mãe do Redentor.

SALVE MARIA!

 

REFERÊNCIAS

CARVALHO, César e Carvalho, Mara. Consagra-te: As Bem aventuranças e o Tratado da Verdadeira Devoção. Natal: Mater Dei, 2012.

 

DOCUMENTOS PONTIFÍCIOS: Idade Média. Rio de Janeiro: Ed. CDB, 2024.

 

EPITETO. O manual de Epiteto e uma seleção de discursos. Jandira, SP: Principis, 2021.

 

PAULO VI, Papa. Carta Encíclica Mense Maio. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 29 abr. 1965. Disponível em: https://www.vatican.va/content/paul-vi/pt/encyclicals/documents/hf_p-vi_enc_29041965_mense-maio.html. Acesso em 23 setembro de 2023.

 

SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. O Pequeno Príncipe. 48. ed. Rio de Janeiro: Agir, 2009.

 

Bíblia católica. Disponível em https://www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria/i-timoteo/4/